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Relatos de um Teacher Viajante: Mochilando pela Nova Zelândia Part4

May 3, 2018

 

Perdida no Deserto

Ilha Norte

 

            Olá, caros leitores deste tão estimado blog! Eu sei que já faz um tempo – foi só para criar um suspense rsrs. Nos posts anteriores falei um pouco sobre como me preparei para essa viagem e algumas coisas que aconteceram até então. Falei sobre pessoas que encontrei e dei algumas dicas sobre mochilão. Para ler pela primeira vez ou até mesmo reler os posts anteriores só clicar aqui.

 

            Estou na Ilha Norte, em Bay of Islands. Acabo de voltar de uma pequena ilha chamada Russel onde adquiro meu companheiro de viagem chamado Zac – em homenagem ao Kiwi que me deu uma fantástica carona alguns dias antes.

 

Bay of Island é um daqueles lugares que não parecem reais de tão bem montados pela natureza. Há dezenas de pequenas ilhas espalhadas, com um mar de água azul – tipo filme A Lagoa Azul – e animais variados como aves marinhas, peixes exóticos e claro, golfinhos. Fiz um passeio para algumas ilhas próximas onde vi dezenas de golfinhos acompanhando o barco. Fiquei torcendo para que uma orca surgisse de repente naquela imensidão, mas não tinha sido daquela vez. Em compensação me senti um pouco mais perto de Deus ao olhar aquele cenário exuberante a minha frente. Montanhas verdejantes florescendo no meio do mar, céu azul e a água... a água era tão cristalina que não era difícil ver os pequenos animais nadando e brigando por um pedaço de pão que alguém jogara na água. A minha felicidade era clara como aquelas águas!

            No dia seguinte peguei a estrada novamente, desta vez para o topo da Ilha Norte num ponto chamado Cape Reinga.

 

 

Cape Reinga é um farol no extremo norte da ilha norte. É nesse ponto onde podemos ver claramente duas obras da natureza colidindo: o oceano pacífico e o mar da Tasmânia. Para os Maoris esse ponto é sagrado, pois acredita-se que quando morre, sua alma é levada até a ponta de Cape Reinga e de lá é guiada para o céu ou para o inferno. Essa pequena ilustração foi contada pelo Sidney, meu anjinho da guarda de Auckland. Foi sem dúvida um dos lugares mais incríveis que eu já estive! A frente há apenas a imensidão azul criada por Deus e a força da natureza claramente vista no chocar das ondas nas pedras da encosta.

 

Atrás, o farol apontando a presença humana juntamente com uma estrada sem fim. De lá é possível ver 99 Miles Beach, uma praia que mais parece um deserto de tão extensa, mas sobre ela explicarei mais tarde.

            Se algum dia você for a Nova Zelândia e passar pela Ilha Norte, não esqueça esse nome: Cape Reinga. Vá até a ponta mais extrema possível, sente-se e olhe para o horizonte. Tenho certeza que lá você vai encontrar um pedacinho de Deus, porque eu encontrei. Olhar para aquela vastidão oceânica te faz sentir pequeno e às vezes é bom nos sentirmos assim.

            Depois de Cape Reinga, totalmente recarregada, voltei a Tutukaka. Peguei carona com o Adam em algum ponto da estrada, pois ainda tinha o contato dele e fui procurar pela Dra. Ingrid Visser. Já haviam se passado duas semanas e talvez se eu tivesse alguma sorte a conheceria dentro de algumas horas... Claro que as coisas não são como planejamos. E umas das coisas que mais aprendi nessa viagem foi lidar com frustrações. Erguer a cabeça, ser grata por tudo até ali e continuar em frente, disposta a aprender uma nova lição. Não consegui conhecer a pesquisadora por quem eu nutria uma admiração especial. Ela recebeu minhas mensagens e meu e-mail e me respondeu, porém encontrar-se comigo não era uma prioridade nem para ela e nem mesmo ajudaria às orcas. Com a resposta de recusa ao encontro, apesar de triste, segui em frente na minha jornada. Peguei a minha mochila e fui para a estrada.

            Fui parar numa cidade chamada Kaitaia. Quando cheguei lá percebi que não havia nada demais nessa cidade. Era a última cidade antes de 99 Miles Beach – 88 quilômetros de praia e dunas, com a mesma extensão de mar aberto vindo diretamente para a costa. Resolvi sair de Kaitaia assim que cheguei. Mas eu não sabia para onde ir. Eu estava perdida numa cidade onde não havia nada e nem ninguém. Resolvi buscar ajuda com alguns brasileiros num grupo de rede social, mas nenhuma ajuda útil me foi concedida. As pessoas só me falavam o quanto ‘ferrada’ eu estava por estar ali, mas nenhuma ajuda útil de ‘vai por ali, faz isso, fica em tal lugar’. A ajuda veio de um rapaz que estava morando no Uruguay. Ele me ajudou a pesquisar algumas informações que eu não estava conseguindo por conta da internet. Eu confiei nele e segui em frente.

Não queria mais perder tempo na minha viagem. Eu já havia perdido duas semanas esperando pela pesquisadora e ainda estava no extremo norte da Ilha Norte. Eu precisaria começar a me mexer se eu quisesse chegar a Ilha Sul logo. Resolvi arriscar. Coloquei a mochila nas costas novamente e voltei para a estrada. Andei, andei e andei. E quanto mais eu andava menos chance de aparecer alguém parecia haver.

          

 

  Finalmente, um carro parou mais a frente e me ofereceu carona. Era quase final da tarde, em torno das 16h. Abri a porta do carro e um simpático homem disse olá. Seu nome era Paul e ele me convenceu a ir para o seu acampamento. Eu não estava mais perdida, apesar do medo de aceitar a carona dele, logo iria escurecer, num lugar remoto como eu estava, ficaria mais frio logo e eu estava cansada de tanto andar. Coloquei nas mãos de Deus e entrei no carro. Por mais Pauls, Zacs, Sidneys e Adams nesse mundo!

            Paul era um homem de meia idade que tinha muitas habilidades. Ele vivia há anos na região, foi criado em uma fazenda e aprendeu desde cedo a se virar. Ele era otimista e trabalhador e claro, bastante generoso. Há alguns anos ele e a esposa haviam montado um pequeno acampamento nas dunas e vinham ajudando viajantes como eu. Indo em direção ao acampamento, entramos na 99 Mile Beach e fiquei encantada com a extensão da praia. Não se via mais nada além de areia dura, dunas e a extensão do mar. Dirigimos a sua van pela areia – e claro que tive essa experiência. Dirigir uma van numa praia deserta com mais de 80km de extensão, com ondas de dois a três metros quebrando ao seu lado, numa paisagem intocada como aquela, quem mais pode dizer que teve essa experiência? Sim, foi incrível! Quando eu achava que as coisas iam de mal a pior, um pequeno detalhe como aquele me fazia dar pulos de alegria. Passei a valorizar mais os pequenos momentos de alegria e a me preocupar menos com os problemas, pois percebi que as situações são como aquelas ondas que me acompanhavam enquanto eu dirigia pela praia... Elas vêm e voltam, quando eu menos esperava, algo incrível acontecia, era só deixar estar e viver o momento.

            Quando chegamos ao acampamento, o Paul fez questão de me mostrar tudo nos mínimos detalhes. Era uma instalação simples, mas com todo o necessário – banheiro, ducha fria, cozinha equipada e algumas cabanas para pernoite. O lugar fica atrás de algumas dunas o que protege do vento forte que faz a noite e também da água do mar que vem pela maré alta. Chegamos e o sol estava indo embora. Subimos num morro e ficamos olhando a paisagem. Conversamos sobre as nossas vidas e ele me falou sobre o lugar onde estávamos. Disse que no dia seguinte iria me levar para conhecer um lugar onde os Maoris costumavam ficar. Ficamos lá naquele morro conversando e apreciando toda aquela imensidão olhando para as dunas e para o mar. Naquele momento me bateu uma leve saudade de casa, a primeira vez desde que eu havia chegado.

            No dia seguinte acordei cedo. O Paul já estava pronto para irmos com a van ver o local dos Maoris. Eram montanhas enormes de conchas, como os nossos Sambaquis aqui em Joinville. Ele me explicou o que os Maoris faziam com aquilo e era praticamente a mesma coisa que os nossos índios brasileiros – coletavam os mariscos e outros animais, aproveitavam conchas maiores para fazer ferramentas e potes e adornos como braceletes e colares. No fim de anos e anos fazendo a mesma coisa, as montanhas de conchas se formavam evidenciando a presença daquele povo na região há mais de mil anos.

            Na volta daquele local histórico encontramos uma mulher caminhando pela areia. Ela estava visivelmente cansada. Paramos a van e demos uma carona a ela. Ela havia andado mais de 30km pela areia da praia. Ela vinha de Cape Reinga e havia andado a noite inteira pelas dunas. Após ser hidratada, tomar um banho e conseguir descansar um pouco ela contou um pouco melhor o que havia acontecido. Ela era da Alemanha, seu nome era Julia e decidiu cortar caminho pela 99 Mile Beach. Porém, a medida que a noite foi caindo, a maré aumentou ficando impossível para ela andar na areia dura forçando-a a andar pelas dunas com as ondas do mar batendo ao seu lado. Andar 30km em areia macia, com uma mochila cargueira de pelo menos 15kg nas costas, quase desidratada, com dores nos pés, sem iluminação o suficiente e o mar a sua espreita pronto para te engolir a qualquer momento, não é simples. Ela poderia ter morrido facilmente nessas circunstâncias.

            Julia e eu nos demos bem logo de cara. Saímos para explorar as dunas e vimos um manada de cavalos selvagens. Ela disse que enquanto caminhava pela praia, ela havia visto o mesmo grupo algumas vezes. Pelas cores dos animais ela tinha certeza que eram os mesmos. Os vimos de longe e nos aproximamos o máximo possível. Eram bastante atentos aos nossos movimentos e ariscos a qualquer movimento. Apreciamos os de longe por um bom tempo até recomeçarmos a exploração pelas dunas. No mesmo dia eu precisei seguir viagem. O Paul me levou até a estrada e de lá eu pegaria carona até algumas cidades adiante a leste dali.

Tudo o que vi e vivi naqueles últimos dias foram muito especiais e foram os momentos que me dão mais saudades. Ficar perdida naquela região não estava nos meus planos, mas sou grata por ter acontecido. Conheci pessoas maravilhosas, tive um contato com uma natureza extraordinária e vi, mais uma vez e de perto, a grandeza da natureza e de Deus. Ver cavalos selvagens correndo a toda velocidade numa praia deserta, sentir o poder do mar batendo com força na costa, ver o nascer e o pôr do sol na paz de um lugar sagrado como aquele e estar com pessoas boas e cheias de histórias e generosidade para partilhar foram sem dúvida um presente da natureza, e eu aproveitei cada momento daquilo! Sim, a Nova Zelândia é incrível.

 

 

 

 

 

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